sábado, junho 16, 2007

PESSOA acoplado, ontem, hoje e sempre...


“hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui esta a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar, invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras, a escrita que inventámos evadiu-se do corpo, o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?
sento-me no cimo de meu próprio lixo e sorrio, espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.”
AL Berto


Auto-Retrato esdrúxulo

“Sou um pobre fragmento de homem,
e de mim, fantasma saído da
cinza e da minha chama.”

Fraco como os primeiros galhos,
que findam com a geada,
e caiem sem dar fruto.

Basta! De não crer na vida,
e nas virtudes, que estão
por de trás da máscara,
que és tu, rugas do meu ser,
inato, e inexpressivo.

Vivo num sono profundo,
E quero despertar!

Vivo à sombra de mim mesmo,
do que pretendo e não faço.
Tenho medo, da negação
que já prevejo e não suporto,
que é não te ter, oh estrela,
que dás luz à minha alma.

Receio o à-vontade perante
o espelho distorcido da vida,
que eu idealizo. Não quero.
É insignificante, a utopia,
tal as facilidades desta minha
Visão surreal no há-de vir.

Nada peço a Deus, pois quem sou!
Um infeliz da sorte, na hora
de te encarar face na face.
Oh Eros, que me aprisionas,
a esta imensa vontade de querer
e querer muito alcançar, o quê?

Não sei, talvez o inexiquívél,
o inalcançável poder de mim
mesmo, em que creio. Mas,
tenho medo ao chegar,
pois não sei o que me espera.
Talvez, o que não queira.

O aprisionamento na ideia de te ter.



1. / EQUINÓCIOS DE TANGERINA

“às vezes, escrevo coisas assim, unicamente para ter o prazer de me reler. saborear o que sobejou da noite, duma realidade qualquer, talvez para avaliar o meu próprio lixo e amar-me um pouco mais. outras vezes, modifico essa realidade, emendo-a, sublimo-a, rasgo-a, expulso-a da memória, descubro que sou o meu primeiro leitor, é nesse momento que me corrijo, proíbo-me, corto uma veia, ouço o canto nítido dos galos, mudo de vida. amanhece sempre que mudo de vida, conheço o meu próprio vómito.” (…) “ouço o corpo inquieto, imobilizado à porta de sua própria destruição."
AL Berto


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